No início da década de 90 ganhei uma bolsa de estudos para fazer o doutorado na Alemanha. A bolsa tinha a duração de 4 anos e eu ainda teria mais 6 meses para aprender alemão. Era a realização de um sonho para uma estudante que vivia de bolsas de pesquisa que mal garantiam o aluguel em São Paulo.
Esta experiência mudou a minha vida de várias formas. Primeiramente porque o mundo cotidiano alemão da época, logo após a queda do muro de Berlin que foi em 1989, era cheio de discussões políticas, campanhas e inovações sociais e ambientais.
O Brasil vivia também um momento muito interessante, pois a ditadura – quando nós discutíamos política as escondidas e não podíamos fazer campanha sobre quase nada – havia terminado em 1984. Assim, quando sai do Brasil vivíamos uma democracia fresca, logo após a preparação de uma nova constituição que nos fez discutir e pensar como ela poderia nos ajudar a construir o futuro que tínhamos imaginado por 20 anos. E foi neste contexto que a jornada de 44 horas semanais foi definida na constituição. Parecia um grande avanço.
Descobri quando cheguei lá que a jornada dos trabalhadores alemães era de 38 a 40 horas semanais, com dois dias de descanso. Esse foi o acordo feito para combinar os direitos que o lado ocidental – capitalista – e oriental – comunista – tinham antes da unificação da Alemanha.
Anos mais tarde, em 2006 voltei a viver na Europa, desta vez na Holanda, co-liderando uma organização global – a GRI, Global Reporting Initiative. Uma das minhas responsabilidades era montar uma nova área de trabalho. Me deparei com pessoas acostumadas a uma jornada de 36 horas semanais. Em 2010, sindicatos e governo fizeram um novo acordo e a jornada flexível de trabalho passou a ser permitida e regras foram criadas para que empresas contratassem profissionais com diversos tipos de jornadas.
Hoje a Holanda tem uma jornada de 29 a 32 horas de trabalho semanal, o que na prática significa que a maioria dos trabalhadores trabalha 4 dias por semana. 75% das profissionais mulheres e 25% dos homens registrados tem jornada flexível.
Mas, o aspecto mais interessante sobre esta discussão, sobre qual jornada de trabalho melhor atende aos trabalhadores e a sociedade, se relaciona com os estudos sobre os impactos amplamente positivos que a redução da jornada traz. Alguns deles surpreendentes, como explico a seguir.
Do ponto de vista econômico, sabemos que o trabalhador holandês produz mais valor por hora do que a média global. Isso se deve à inserção de tecnologias, claro, mas também a uma sensação de necessidade de ser eficiente que a redução da jornada traz. Além disso, hoje sabemos que quem tem mais tempo livre e está empregado aquece o comércio local e aprende e utiliza mais serviços.
Mas é do ponto de vista social e ambiental que o tema fica realmente interessante. Estudos mostram que o acesso a jornada flexível ajuda a distribuição mais igualitária das tarefas domésticas entre os gêneros, melhora todos os indicadores de doenças causadas por excessos, e o engajamento em atividades comunitárias aumentam, assim como a prática de esportes, o que de novo contribui para uma melhora clara na saúde mental e física.
Mas, para mim, foi o sociólogo alemão Harald Welzer que matou a parte mais importante da charada, tocando em aspectos muito relevantes para os dias atuais. No seu livro Selbst Denken (Pense com a sua cabeça) de 2013 ele explica que, entre os que querem fragilizar a democracia há grande interesse em jornadas exaustivas. Sem tempo para cuidar da saúde, da família, interagir com a comunidade ou se dedicar a resolver os problemas que podem garantir ou melhorar a sua qualidade de vida, os trabalhadores só tem tempo para trabalhar. Assim, sem tempo para nada, eles se afastam dos fóruns que oferecem espaço para a resolução de problemas em conjunto, das discussões que pedem maior tempo de reflexão e da formação de alianças para construção do mundo que ela/ele desejam.
Então, há uma relação extremamente importante entre as discussões sobre a definição da jornada dos profissionais registrados no Brasil e o tipo de sociedade e participação comunitária que queremos ter. Acho este o aspecto mais relevante desta conversa, além, claro do fato de que não deveríamos ter dúvidas de que o papel dos legisladores deve ser, em qualquer circunstância, proteger a saúde dos trabalhadores brasileiros e seu direito ao descanso, ao lazer, à vida em família, e em comunidade. Que, vale dizer, tem também impacto na redução da criminalidade e a violência.
A atual discussão sobre a jornada de trabalho está conectada com uma visão de mundo, e estão longe de ter em seu centro aspectos somente econômicos e técnicos. Pensemos nisso.


