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18.08.26 às 10:00
O desafio de conciliar transição energética e proteção do oceano
Diante de incertezas científicas, mineração em alto-mar exige precaução e regras internacionais robustas
Mineração em alto mar

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No dia 8 de junho foi celebrado o Dia Mundial do Oceano, cuja edição de 2026 adotou o tema “Reimaginar: para além do mundo que conhecemos, uma nova relação com o nosso oceano”. A mensagem proposta pelas Nações Unidas (ONU) é clara: o oceano não pode mais ser visto apenas como uma fonte inesgotável de recursos econômicos, mas como um patrimônio comum da humanidade, cuja gestão exige responsabilidade intergeracional e cooperação internacional.

Essa reflexão ganha ainda mais relevância diante da crescente corrida global por minerais críticos. Impulsionada pela eletrificação da economia e pelos compromissos de descarbonização assumidos por governos e empresas, a busca por níquel, cobalto, manganês e terras raras tornou-se estratégica para a competitividade industrial e para a segurança econômica dos Estados. Nesse cenário, a mineração em águas profundas emerge como uma das fronteiras mais promissoras — e controversas — da economia do século 21.

A demanda por esses minerais está diretamente ligada a setores considerados essenciais, como defesa, tecnologia e energia. No campo energético, em especial, a expansão das fontes renováveis depende de cadeias produtivas intensivas nesses insumos. Turbinas eólicas offshore, baterias para armazenamento de energia, veículos elétricos, cabos submarinos e sistemas de transmissão exigem volumes cada vez maiores de matérias-primas minerais.

Em outras palavras, a mesma transição energética frequentemente apresentada como caminho para um futuro mais sustentável também amplia a pressão sobre novas fronteiras de extração.

É justamente nesse ponto que surge um dos principais dilemas do debate. A busca por soluções para reduzir emissões de carbono e acelerar a economia verde pode, paradoxalmente, incentivar atividades cujos impactos ambientais ainda são pouco compreendidos.

Os ecossistemas do oceano profundo permanecem entre os menos estudados do planeta, e persistem incertezas científicas significativas sobre os efeitos da remoção de nódulos polimetálicos, da dispersão de sedimentos e das alterações na biodiversidade marinha. Os potenciais impactos ambientais podem ser irreversíveis e ultrapassar fronteiras nacionais.

As incertezas, contudo, não se restringem ao campo ambiental. A governança internacional da mineração em alto-mar também permanece em construção. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) trabalha na elaboração de um marco regulatório capaz de disciplinar futuras atividades de exploração, buscando equilibrar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e repartição equitativa de benefícios.

A conclusão desse processo tornou-se ainda mais urgente diante das crescentes disputas geopolíticas pelo acesso a minerais críticos e da necessidade de evitar um cenário de exploração desordenada dos recursos marinhos.

O Brasil, por sua vez, ocupa uma posição singular. Além de possuir uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo – com cerca de 3,6 milhões de km², onde exerce direitos exclusivos sobre a exploração e a gestão dos recursos naturais – o país vem ampliando seu protagonismo internacional ao assumir papel de destaque nas negociações sobre a regulamentação da mineração em águas profundas.

A liderança brasileira nos debates conduzidos pela ISA representa uma oportunidade relevante para contribuir com a construção de um modelo regulatório baseado em evidências científicas, no princípio da precaução e na cooperação multilateral.

Ao mesmo tempo, o país reúne condições para desempenhar um papel estratégico na cadeia global de minerais críticos. O território brasileiro concentra importantes reservas minerais em terra firme, possui uma matriz elétrica amplamente baseada em fontes renováveis e desponta como potencial fornecedor para setores ligados à transição energética.

Por isso, sua atuação não deve se limitar à exploração de recursos, mas também incluir a formulação de padrões e diretrizes internacionais capazes de conciliar desenvolvimento econômico, soberania e conservação do oceano.

As perspectivas para os próximos anos indicam que a demanda por minerais críticos continuará crescendo, acompanhando a expansão da mobilidade elétrica, da digitalização e das energias renováveis. Essa tendência, entretanto, reforça a importância de diversificar as estratégias de suprimento, investindo em reciclagem, economia circular, inovação tecnológica e uso mais eficiente dos materiais, de forma a reduzir a dependência exclusiva de novas frentes extrativas.

No fim das contas, o desafio, por si, não consiste em escolher entre proteger o oceano ou promover a transição energética. A questão central foca em construir mecanismos de governança capazes de compatibilizar ambos os objetivos. O Dia Mundial do Oceano de 2026 convidou justamente a essa reflexão: reimaginar nossa relação com o oceano significa reconhecer seu papel indispensável para o desenvolvimento humano sem ignorar seus limites ecológicos.

A mineração em águas profundas pode representar uma oportunidade econômica relevante para a transição energética global. No entanto, diante das incertezas científicas ainda existentes sobre seus impactos ambientais, qualquer avanço nessa agenda deve ser guiado pelo princípio da precaução e amparado por regras robustas, bem como por um compromisso efetivo com as futuras gerações.

Em um ambiente tão pouco conhecido quanto o oceano profundo, a ausência de respostas definitivas não pode ser confundida com ausência de riscos. Por isso, reimaginar nossa relação com o oceano significa, sobretudo, reconhecer que inovação, desenvolvimento e conservação precisam caminhar juntos. Caso contrário, corremos o risco de comprometer um patrimônio comum antes mesmo de compreendê-lo plenamente.

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